Angelina Jolie fala sobre feminilidade, desejo e coragem em entrevista promocional de Coutures
A Pathé Films disponibilizou em seu site oficial uma entrevista exclusiva com Angelina Jolie, parte do press kit de divulgação do filme Coutures, dirigido por Alice Winocour.
Na conversa, Jolie fala sobre sua admiração pela diretora e o desafio de interpretar em francês, língua que ainda estuda e que representa uma novidade em sua carreira. A atriz também compartilha reflexões íntimas sobre sua trajetória pessoal referentes a suas cirurgias preventivas contra o câncer de mama e ovário, relacionando sua experiência com a de sua mãe, Marcheline Bertrand, e sua avó.
Além disso, ela destaca a importância de abordar a feminilidade e o desejo mesmo diante da doença, reforçando como o cinema pode ser um espaço de conexão e coragem. Jolie comenta ainda sobre sua relação com os colegas de elenco, o ambiente de solidariedade feminina que permeou as filmagens e a forma como o universo da moda, pano de fundo da obra, dialoga com questões de identidade e vulnerabilidade.
Essa entrevista revela uma faceta mais pessoal e sensível da atriz, que se mostra vulnerável, mas também profundamente engajada em transmitir mensagens de empatia, força e celebração da vida.
Eu já conhecia o trabalho dela e sempre a admirei. Alice é incrível. É uma pessoa muito generosa, com uma profundidade e uma inteligência emocional notáveis. Com este filme, ficou claro que ela queria compartilhar algo sincero e criar uma verdadeira conexão com o público.
Quando descobri no roteiro que Maxine havia sido diagnosticada com câncer de mama, eu tinha uma ideia da direção que a história poderia seguir, mas nunca imaginei que terminaria daquela forma. Não teria pensado que o desejo ainda estaria no centro do filme. É importante viver e ser desejada como mulher, e para aqueles que amam uma mulher, compreender isso. Alice transmitiu isso com tanta beleza.
Diante da doença, não se sabe se a vida vai acabar. Em muitos filmes, a história se concentra no fim, tornando-se frequentemente relatos tristes e pesados. Muitas pessoas com câncer, aliás, sentem que só se fala disso com elas.
Fazer este filme foi importante para mim. Ele me ajudou a lembrar, e espero que também ajude outras pessoas, que é justamente nesses momentos que podemos nos sentir mais vivos. Somos obrigados a encarar nossa fragilidade, mas também podemos nos apaixonar novamente pela vida e escolher vivê-la intensamente.
O filme Coutures foi rodado na França e principalmente em francês. O que levou você a embarcar nessa aventura inédita na sua filmografia? Seu encontro com Alice? A leitura do roteiro dela? Os dois?
Gostei do desafio de interpretar uma personagem que fala francês. Eu entendo melhor a língua do que falo, mas continuo fazendo aulas, mesmo ainda sendo um pouco tímida. Quando um roteiro é bem escrito, não importa a língua, ele se impõe naturalmente.
O percurso de Maxine, sua personagem, é próximo ao seu: a doença, em especial, faz eco à sua história pessoal e à de sua mãe, Marcheline Bertrand. Você diria que este é o seu papel mais íntimo? Talvez… o papel da sua vida?
É muito pessoal para mim, porque a saúde das mulheres e os cânceres femininos são temas que me tocam profundamente. Perdi minha mãe e minha avó muito jovem, e então tomei a decisão de fazer uma dupla mastectomia há cerca de dez anos. Foram minhas escolhas. Não digo que todo mundo deva fazer o mesmo, mas é importante ter a possibilidade de escolher. Não me arrependo.
Toda pessoa que enfrenta uma provação se sente vulnerável e sozinha. Os cânceres que atingem as mulheres têm uma dimensão particular, porque afetam profundamente a percepção que temos da nossa feminilidade.
Você apresenta uma interpretação sutil, mostrando-se vulnerável como nunca antes, mas com muita contenção. Não foi o mais difícil?
Obrigada. O que achei mais bonito no filme é que ele mostra como atravessamos as provações. Cada pessoa que assiste pode se identificar. Sempre há um momento na vida em que você duvida da sua capacidade de superar uma dificuldade — ou você desmorona, ou segue em frente.
Assim, de muitas maneiras, este filme fala sobre a vida. Não é uma história sobre o fim, mas um relato profundamente humano sobre a coragem de continuar vivendo plenamente, apesar de tudo.
Por que você quis coproduzir o filme além de interpretar um papel principal?
Este filme traz uma mensagem forte e importante para todos que amam uma mulher: a de abordar o desejo e a sexualidade após o anúncio de um diagnóstico. Eu me conectei imediatamente com essa mensagem e quis ajudar a compartilhá-la.
Coutures se passa no mundo da moda. Ele busca mostrar o que acontece nos bastidores, atrás do pano. Como ícone e mulher engajada, como você percebe esse universo e a representação da feminilidade? Corresponde à visão de Alice?
Achei alguns aspectos profundamente tocantes, especialmente essa tensão entre a imagem que projetamos e a riqueza das nossas vidas interiores. O mundo da moda tende muitas vezes a ocultar a vulnerabilidade ligada à exposição do corpo, e raramente se interessa por figuras como Ada, uma modelo sul-sudanesa interpretada por Anyier Anei, ela mesma modelo originária do Sudão. Sua personagem tenta encontrar seu lugar nesse universo fechado e por vezes desconcertante. Para Ada, ganhar dinheiro e aprender a administrá-lo para sustentar sua família é um desafio imenso.
No plano individual, a moda representa muitas coisas. É uma forma de se apresentar ao mundo, ao mesmo tempo em que revela nossas histórias pessoais e quem somos profundamente, com nossas perspectivas únicas.
Uma forma de resistência, ao mesmo tempo discreta e bela, se desenvolve entre Maxine, Ada e Angèle, as três heroínas desse filme coral. Na sua opinião, o que conecta profundamente essas mulheres de diferentes idades e culturas?
O filme destaca mulheres vindas de diferentes origens e partes do mundo, que descobrem o que as une. Gosto do fato de que suas relações mostram que empatia e compaixão não são apenas possíveis, mas necessárias. Quando mulheres se reúnem dessa forma, é algo muito especial. Quanto mais o tempo passa, mais valorizo os laços criados com outras mulheres.
O tema da solidariedade feminina anima e ilumina todo o filme. Por que isso é importante?
No fundo, todos nós aspiramos a ser compreendidos e acolhidos com bondade. No fim das contas, somos muito mais semelhantes do que diferentes. Participar desse filme, dar vida a essas mulheres e trabalhar com uma equipe dirigida por mulheres ressoou profundamente com os temas abordados na história. A conexão está no coração da existência, e aquela que une as mulheres, especialmente nos momentos difíceis, é uma fonte preciosa de conforto.
Como foi a filmagem? Foi um deslocamento para você e, se sim, de que maneira?
As filmagens foram bastante intensas emocionalmente, mas também alegres e reparadoras. Pensei muito na minha mãe, no que eu teria desejado para ela: que encontrasse uma comunidade, que pudesse se expressar tão livremente quanto eu pude, e que as pessoas respondessem a ela com tanta graça quanto o público respondeu. Filmar em francês me permitiu sentir uma ligação profunda com ela. Gostaria muito de voltar a trabalhar em Paris em breve.
Por fim, algumas palavras sobre seus parceiros. Fale-nos de Ella Rumpf, com quem você compartilha uma cena de confidência poderosa; de Anyier Anei, cujo percurso pessoal certamente a tocou muito; e de Louis Garrel, que interpreta Anton, um dos poucos papéis masculinos do filme.
Sentir-se próxima e aprender com os artistas com quem você trabalha é certamente o mais bonito na criação. São essas trocas e essas relações que tornam o processo tão especial. Este filme e esta equipe evidenciaram isso de forma perfeita.
Trabalhar nessa produção foi uma aventura maravilhosa. Pela minha experiência, os filmes que abordam temas pesados tendem a criar as conexões e ambientes mais preciosos. Encontrei grande conforto junto de Ella, Anyier, Louis e Vincent, e senti um verdadeiro espírito de comunidade e confiança mútua.





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