Angelina Jolie concede entrevista para a edição francesa da revista Elle

Por: Marguerite Baux, Fotos: Nathaniel Goldberg/H&K, Produção: Claire Dhelens

ANGELINA JOLIE: "EU TENHO ORGULHO DAS MINHAS CICATRIZES"

Em Coutures, filme delicado dirigido por Alice Winocour, a estrela interpreta uma cineasta atingida por um câncer de mama. Um tema que a toca intimamente e sobre o qual ela nos fala com emoção.

Ela tem a postura de uma embaixadora, o porte elegante de uma bailarina e a silhueta fina de quem pratica disciplina zen – ou até de uma adolescente gótica. Foi preciso passar por um certo protocolo para encontrá-la, mas, uma vez instalada no salão de um grande hotel em Paris, envolta em um xale preto bordado e usando saltos altíssimos, Angelina Jolie não se poupa. Ela está em missão.

Saiu da sua habitual discrição para falar de Coutures, novo filme de Alice Winocour – diretora de Proxima com Eva Green e Revoir Paris com Virginie Efira. A presença de Angelina já transforma o projeto em um acontecimento. O longa é um retrato triplo de mulheres no universo da moda. Ela interpreta uma cineasta americana que chega a Paris para filmar um desfile e descobre que tem câncer de mama. No meio da correria das gravações, cruza o caminho de uma jovem modelo (Anyier Anei), recém-chegada de um país em guerra, e de uma maquiadora (Ella Rumpf), trabalhadora dos bastidores, precária e observadora.

As três personagens vivem entre a fachada de força e a luta íntima, numa trama delicada sobre a vida secreta das mulheres. Angelina aparece como nunca: falando francês, usando roupas que poderiam ser dela mesma, indo ao Darly, vivendo uma cena de amor intensa, aparecendo nua no hospital. Mas, sobretudo, porque o câncer é um tema que ela conhece de perto. Em 2013, anunciou ter feito uma mastectomia preventiva e, dois anos depois, retirou os ovários, para se antecipar à mutação genética BRCA1 herdada da mãe e da avó, ambas vítimas da doença.

“Eu escrevi o papel pensando na Angelina”, conta Alice Winocour. “Depois construímos juntas. Como o filme mostra os bastidores da moda, esse mundo de aparências que esconde feridas, eu queria revelar a verdadeira Angelina por trás de Lara Croft. Ela se envolveu profundamente, foi ela quem quis incluir, por exemplo, uma cena de sexo, algo que quase nunca fez.”

Singular, emocionante e sem cair no melodrama, Coutures também traz a própria história da diretora: “No começo eu não queria falar de mim, mas quando jornalistas começaram a me explicar o que é passar por um câncer, isso me irritou… Acho que é mais que um filme para Angelina, é um pedaço das nossas vidas, uma forma de celebrar a solidariedade entre mulheres. Angelina coloca sua vida em seus papéis, e a confiança que me deu é um presente.”

Mesmo com a agenda controlada ao milímetro, a atriz encontrou tempo para compartilhar generosamente sua experiência com a doença e as razões pelas quais aceitou se expor nesse exercício tão bonito de fragilidade.

ELLE: Quando Alice Winocour lhe enviou o roteiro, você sabia que ela havia enfrentado uma doença?

Angelina Jolie: Não, no momento em que li o roteiro eu não sabia. Mas era evidente que ela tinha vivido isso, diretamente ou através de alguém próximo, para conseguir escrever uma história tão verdadeira. Depois ela me contou, e me senti honrada. Pensei: somos duas irmãs no mesmo barco. Há uma cena, uma das minhas favoritas, em que minha personagem, Maxine, espera os resultados no hospital ao lado de uma desconhecida. Elas trocam apenas algumas palavras, mas isso já cria uma conexão. Foi um pouco como aconteceu entre Alice e eu. Essa relação de compreensão, de cuidado e de solidariedade entre mulheres está muito bem expressa no filme.

ELLE: Não é apenas um filme sobre o câncer…

Angelina Jolie: Infelizmente, é um tema que toca muita gente – uma em cada três pessoas passa pela experiência do câncer em algum momento da vida. Muitas vezes, quando o cinema aborda esse assunto, não se fala de alegria, de sexo, de trabalho, de todos os aspectos da vida que continuam mesmo durante a doença. Este filme mostra tudo isso. Acho que pode ajudar não só os pacientes, mas também aqueles que estão ao redor e que os amam.

ELLE: Em 2013, você falou publicamente sobre o câncer, o que resultou em um aumento impressionante nos exames preventivos, chamado de “Efeito Angelina”. O que a levou, naquela época, a tornar essa decisão pública?

Angelina Jolie: Eu queria fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para viver o máximo possível pelos meus filhos. Também precisava pensar no melhor momento para conversar com eles sobre isso. Ao mesmo tempo, pensava muito na minha mãe, que se sentiu muito sozinha durante a doença. Ela não queria ser reduzida a isso, queria falar de livros, da vida, de outras coisas. Mas também me inspirou a compartilhar informações, a falar abertamente, tanto para incentivar o diagnóstico precoce quanto para que outras mulheres não se sentissem tão isoladas.

ELLE: Durante muito tempo, as mulheres foram incentivadas a manter discrição sobre o câncer…

Angelina Jolie: Mas não há motivo para vergonha, pelo contrário. Eu tenho orgulho das minhas cicatrizes. Antes da cirurgia, claro que me perguntei se me sentiria menos desejável, menos sexy. Mas aceitei a ideia de mudar, como mulher e como atriz, de talvez ser vista de outra forma por algumas pessoas. Sempre achei belas as mulheres com cicatrizes, e fiquei orgulhosa de me juntar a elas. Assim como gosto das cicatrizes da minha cesariana, ou mesmo das pequenas marcas dos acidentes da vida. Minhas cicatrizes, meus tatuagens, são a minha história.

ELLE: No filme, Maxine teme o momento em que terá de contar à filha sobre o câncer. Como você falou disso com seus filhos?

Angelina Jolie: No meu caso, foi uma cirurgia preventiva. Meus filhos sabiam que eu havia perdido minha mãe por causa da doença, e meu filho Maddox era muito ligado a ela, então eu sabia que isso poderia assustá-los. A operação foi feita em etapas: primeiro retiraram tudo, depois veio a reconstrução. É muito diferente hoje. Após a primeira etapa, no dia seguinte, eu também havia operado o ombro, para que eles entendessem que eu não poderia abraçá-los. Esperei até a última cirurgia, ainda com drenos e tubos saindo do corpo – uma visão até interessante – mas já estava com boa aparência. Preferi mostrar essa realidade, em vez de esperar até não haver mais sinais visíveis. Eu estava sorridente e feliz por estar viva. Queria normalizar tudo isso, que eles tivessem uma imagem positiva da medicina e dos médicos, e que entendessem que essas operações me davam a chance de viver mais do que minha mãe. Mas cada pai conhece seus filhos e sabe qual é o momento certo e o que eles conseguem lidar. É uma escolha muito pessoal.

ELLE: O que isso mudou na sua relação com o corpo?

Angelina Jolie: Muita coisa. Também retirei os ovários, o que provoca menopausa. Eu até brincava na época: “Ok, segunda-feira estou na montagem, terça tenho a cirurgia, quarta já estou na menopausa!” Essas mudanças podem ser bruscas, mas eu as acho extraordinárias. É algo que as mulheres talvez entendam melhor que os homens, porque nosso corpo passa por transformações enormes ao longo da vida. Primeiro somos meninas, depois mulheres, o que traz vulnerabilidade, depois vem a descoberta do prazer, a gravidez, a amamentação, carregar um bebê nos braços… o corpo nunca para de mudar. E aí entram o prazer, o desejo, o envelhecimento. É um percurso complexo e muito bonito.

ELLE: Como atriz, você também passou por muitas metamorfoses, precisou treinar para certos papéis…

Angelina Jolie: Eu sou péssima para treinar, só faço quando estou preparando um filme. Precisei fazer mais exercícios, principalmente musculação, porque depois de certa idade isso é importante. Já vivi estados muito diferentes do meu corpo graças ao meu trabalho. Lembro de quando tive meus gêmeos, em Nice. Eu estava com quatro filhos, lendo o roteiro de Salt, em que interpretava uma agente da CIA – papel originalmente escrito para um homem, cheio de cenas de luta – e eu não poderia me sentir mais distante daquilo. Mas achei que era uma oportunidade de me transformar de novo. Mesmo que o papel tenha chegado um pouco cedo demais. Eu ainda tinha dificuldade para correr por causa da cesariana, foi duro no começo. É um exemplo extremo, mas acho que todas as mulheres entendem o que quero dizer.

ELLE: Em uma cena de Coutures, Maxine pergunta ao amigo: “Você acha que somos responsáveis pelo que acontece na nossa vida?” O que você responderia?

Angelina Jolie: Quando sofremos, sempre nos perguntamos por que aquilo aconteceu conosco. Não acredito que sejamos responsáveis, isso seria uma questão para Alice, mas acredito que temos escolha sobre o que fazemos com isso. Perdi minha mãe cedo, ela tinha 56 anos, e isso me aproxima de muitas pessoas. Não quero dizer que algo bom sempre sai do sofrimento – pedir a alguém que sofre para sorrir seria injusto. É normal sentir raiva, querer gritar. Não se trata de aceitar, mas de compartilhar com os outros. Até o fim do meu casamento me ensinou coisas, e isso ajuda a reconhecer experiências semelhantes em outras pessoas. Alice também carrega essa dor: ela escolheu fazer este filme e, graças a ele, muita gente vai se sentir menos sozinha, talvez até conversar com seus filhos ou ver a vida de outra forma. Acho que isso faz parte da cura.

ELLE: Há cenas de nudez, quando Maxine está no hospital, mas também quando faz amor. Foi delicado para você?

Angelina Jolie: Entendo perfeitamente a escolha dela de procurar um homem para se deitar quando descobre que tem câncer de mama. E acredito que muitas mulheres também vão entender. Mais do que em qualquer outro filme, eu quis mostrar sensualidade. Justamente porque ela tem câncer. É fundamental falar de sexualidade, espero que maridos e esposas compreendam essa mensagem.

ELLE: Você acha que os homens vão assistir ao filme?

Angelina Jolie: Imagino que muitos homens irão porque estarão acompanhando alguém, e isso é ótimo. Mas também podem ir sozinhos, se sentirem necessidade. Acho que é um filme extremamente importante para eles. É uma chave para nos compreender, e no filme os homens têm papéis essenciais: o médico vivido por Vincent Lindon e o amigo-amante interpretado por Louis Garrel.

ELLE: Um dos três personagens principais é interpretado pela atriz e modelo sul-sudanesa Anyier Anei. Antes de ver seus filmes, ela já conhecia você por uma escola que leva seu nome. Qual é sua ligação com o Sudão?

Angelina Jolie: Criei essa escola há anos para meninas do campo de refugiados de Kakuma, no Quênia. Muitas das alunas são sudanesas. A crise atual é gravíssima e pouco representada na mídia. Conheci pessoas que foram obrigadas a fugir e outras que ficaram presas lá. Os civis enfrentam níveis terríveis de crueldade e brutalidade: massacres, perseguições étnicas, sequestros. Contracenar com Anyier, que representa seu povo com tanta dignidade, foi uma honra para mim.

ELLE: Você diria que é um filme feminino?

Angelina Jolie: Sim. É honesto. É sensual. É forte. Mas não é sentimental. Não é um manifesto, nem uma demonstração ou melodrama, é a vida. As três mulheres enfrentam dificuldades diferentes para seguir seus desejos e ambições. O câncer é uma delas. Não há solução externa, é preciso manter o rumo, de cabeça erguida. Simbolicamente, elas estão na mesma tempestade, e se reconhecem umas nas outras.

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