Angelina Jolie entrevista Salma Hayek para a revista The Cut

Por: Angelina Jolie

Tem sido um ano marcante para Salma Hayek Pinault. Ela se mudou para Paris, deu as boas-vindas a um neto, começou a editar sua estreia como diretora no longa-metragem — Arena, que ela também escreveu e protagoniza — e comemorou seu aniversário de 60 anos.

Ela sempre esteve destinada a chegar até aqui. Sete anos atrás, ela conheceu Angelina Jolie na San Diego Comic-Con, onde promoviam Eternos, da Marvel. Elas rapidamente se tornaram grandes amigas. Mais tarde, Jolie escalou Hayek Pinault em sua adaptação de Without Blood, um romance de Alessandro Baricco ambientado no cenário de uma guerra não identificada do século XX. No filme, que terá sua estreia nos cinemas dos EUA em setembro, Hayek Pinault interpreta Nina, uma mulher que sobreviveu a uma emboscada em sua casa quando era menina e, várias décadas depois, reencontra o homem que poupou sua vida para uma conversa emocionante sobre culpa e luto. Abaixo, Jolie entrevista a estrela de Without Blood sobre a colaboração em um dos filmes mais desafiadores que Hayek Pinault já fez."

SALMA HAYEK: Eu estava com medo de fazer esse papel. Eu não queria sofrer. Ele exigia que eu ficasse à beira das lágrimas, mas sem chorar. E essa não é uma obra onde você possa fingir. Você não é uma diretora que se possa enganar. Você é muito perspicaz. Porque você tem esse talento e essa garra. Teve uma vez que achei que tinha feito a melhora tomada, a melhor atuação da minha vida. Pensei: 'Ela vai ficar tão orgulhosa de mim. Vai me elogiar.' E você estava tão séria. Você disse: 'A essa altura, nós já sabemos que você sabe atuar, mas isso foi tão previsível e tão arrogante.'

ANGELINA JOLIE: Espero não ter dito isso.

SH: Não, você quis dizer sobre a personagem.

AJ: A força tomou conta da alma.

SH: Sim, a força e a raiva da personagem. Eu tive que tentar de novo pelo propósito maior do filme. Você disse algo que significou tanto para mim que me deu vontade de chorar: 'Eu não te escolhi pela sua força. Eu te escolhi por sua capacidade de se cura. Então sente-se àquela mesa e cure seu inimigo para curar a si mesma. Dê a ele essa oportunidade. Você precisa partir desse lugar para que todos que assistam possam ser inspirados a ir até lá: Eu não estou aqui para vencer; estou aqui para me curar e curar os outros.'

AJ: As pessoas não conhecem você. Seu desejo, sua habilidade, seu lado acolhedor, seu sentimento, seu calor humano, sua alma — essas são as suas maiores qualidades. E como você tem todos esses outros atributos, às vezes não é nisso que focam.

SH: Mas sabe de uma coisa? Eu também nunca me senti tão compreendida, porque geralmente me diziam, especialmente no início da minha carreira: 'Você foi escolhida, porque você é bonitinha, então pare de tentar ser inteligente.' [Risos.]

AJ: Você é muito mais acadêmica do que as pessoas imaginam. Faz parte da sua contribuição como artista ajudar as pessoas a se sentirem conectadas à sua feminilidade, à sua cultura. Foi maravilhoso estar na sua terra natal com você.

SH: E nos lugares onde cresci, na natureza. Eu estava tão cercada pela natureza e não dava valor a isso. Fas parte da minha espiritualidade. Às vezes a rejeitamos ou não encontramos beleza nela porque está em toda parte. Mas conforme você se afasta dela, e vai ficando mais sábia e mais velha, percebi o quanto, subconscientemente, ela era importante para mim e para quem me tornei.

AJ: Ver você em seu estado natural — é tão acolhedor, honesto e conectado à terra.

SH: O engraçado, Angie, é que no meio da selva, onde todo mundo fica com tanto medo e desconfortável, você e eu estávamos no nosso elemento. Éramos nós mesmas, as mais autênticas possível. Foi engraçado porque acho que meu país é muito diverso. E você dizia: 'Isso me lembra o Vietnã, e esta parte lembra o Camboja…' Eu vi seus olhos brilharem porque todos esses lugares são o seu lar.

AJ: Without Blood foi um desafio para mim porque quase todos os meus filmes lidam com conflito e guerra por causa do que vi, do que quero estudar e compreender. Mas geralmente é sobre uma paisagem ou um país, como a antiga Iugoslávia ou a guerra do Camboja. Este filme foi o mapa do ser humano e do rosto humano como um país. Isso exigiu muito de todos vocês, porque não saímos para filmar cenas de ação, planos gerais ou locações externas. Foi realmente confiar que a alma e a humanidade de uma pessoa são cativantes. Mas isso significa que o ator precisa ser completamente honesto em cada momento, porque estávamos dentro de você e não havia onde se esconder.

SH: E quer saber? Eu não queria me esconder. Acho que não teria conseguido fazer isso com mais ninguém. Nunca me senti tão livre na minha vida como atriz. Você me deu tudo o que eu precisei. Fui mimada pelo processo. Meu colega de elenco, Demián Bichir, sentiu o mesmo. Esta também foi a primeira vez que me deram a oportunidade de escolher o ator com quem contracenaria — a primeira vez que fui envolvida, consultada ou questionada sobre isso. E eu nem sequer pedi por isso.

AJ: Isso é uma loucura, considerando a sua carreira e a sua vida. Além disso, não se trata de ter o poder de ser consultada; é que, quando as coisas são tão íntimas, é realmente importante que os atores tenham, pelo menos, uma palavra a dizer sobre o motivo pelo qual podem se conectar com outra pessoa.

SH: Sim. Eu pude trabalhar com um grande amigo. Já tinha trabalhado com ele antes em papéis pequenos. Não conseguíamos acreditar na nossa sorte. Nós nos beliscávamos todos os dias, mesmo que o trabalho fosse sobre sofrimento.

AJ: Eu não teria conseguido fazer isso com outros atores. Exigiu um nível de dedicação enorme. Fiquei feliz que vocês já se conheciam. Filmamos algumas cenas em sequência, e vocês dois mantiveram uma certa distância, e só se reaproximaram no final. Isso não foi ideia minha; foi uma escolha muito inteligente de vocês dois.

SH: Às vezes, como ator, você pensa: " Preciso me torturar para fazer um trabalho melhor". Mas, como tive muito apoio, senti que não precisava me torturar de verdade.

AJ: Às vezes eu sentia que estava torturando minha amiga, mas adorei a experiência.

SH: Porque você também é atriz, não apenas diretora. No começo, eu não sabia como ia conseguir conter a emoção por tanto tempo. Eu dizia: “Acho que preciso chorar e depois continuar, porque está me sufocando. Vou ter um ataque de pânico”. E você respondia: 'É, talvez seja uma boa ideia.' Eu começava a soluçar no seu ombro, te abraçando. Às vezes, começávamos a conversar no meu camarim sobre uma parte da cena e, de repente, estávamos falando sobre guerra. Todo mundo conseguia nos ouvir gritando ou rindo. Devem ter pensado que estávamos loucas. Depois, eu voltava ao trabalho. Liguei para você no meio da noite e disse: 'O que eu faço? Não consigo me livrar disso. Ainda sinto a ansiedade dela.' Você me ajudou a sair desse estado. Eu podia te ligar às duas da manhã se estivesse em pânico. Depois da primeira semana, ficou fácil. Mas você sempre esteve lá.

AJ: Você deveria falar sobre dirigir. Eu vi você no set de Arena, liderando, decidindo e assumindo a responsabilidade por tudo. Você abraçou isso por completo.

SH: O seu filme e o meu filme são obras baseadas em diálogos. Mas eles não poderiam ser mais diferentes.

AJ: Você tem razão. Nossos filmes não tentam ditar como o público deve se sentir ou interpretar as coisas, mas sim propõem perguntas, sentimentos e conversas.

SH: Criamos um cenário para que as pessoas possam explorar a si mesmas. Meu colega de elenco em Arena (o ator indicado ao Oscar Yura Borisov), disse que gosta mais de mim quando estamos no set. Ele acha que pareço mais relaxada como atriz e que não sinto a pressão da direção. Ele disse: ‘Eu posso simplesmente falar com você de uma maneira diferente.

AJ: Bem, é difícil dirigir a si mesma. E você resolveu assumir algo tão desafiador logo na sua primeira vez dirigindo. E ainda escreveu o roteiro. Mas esse é o seu jeito. Tinha que ser a sua visão. Você se dá bem com desafios. Gosta de uma grande montanha para escalar. [Risos.]

SH: Quando você tem uma visão, desconfia que todo mundo está te achando louca. Nos anos 2000, quando produzi Ugly Betty, era importante para mim dar vida àquele projeto porque eu sabia que havia um público enorme que a televisão americana não estava aproveitando: o público latino-americano. Esse programa já era famoso na América Latina. Eu queria mostrar que nossas histórias eram 100% capazes de fazer sucesso lá. Eu queria provar que eu estava certa.

Eu convenci a emissora a fazer. E, meu Deus, como eu tive que lutar. Aquela não era a estética convencional de uma protagonista na época. Eles me rejeitaram um milhão de vezes, então levei o projeto aos anunciantes junto com um estudo sobre o poder de consumo dos latinos que eu mesma tinha feito com o José Pepe — porque, na época, os dados não eram fáceis de acessar. Os anunciantes queriam pagar por espaço publicitário no programa. E com o apoio de uma agência, voltei às emissoras e disse: 'Olhem, vocês têm certeza de que querem deixar passar? Porque eles estão dispostos a pagar pelo programa.' Foi assim que consegui colocá-lo no ar. Isso nunca tinha sido feito antes. Os executivos da emissora ficaram irritados.

Tentamos mostrar ao público as diferentes dificuldades enfrentadas pelos personagens em cada episódio. O que significa ser uma família de imigrantes no Queens. Espero que isso inspire as pessoas a sonharem — sobre o aspecto profissional de suas vidas, o aspecto romântico, a família e a comunidade.

AJ: Quais são os projetos ou áreas da sua vida que você gostaria de explorar?

SH: Ai meu Deus. Angie, não vou entrar em tantos detalhes agora.

AJ: Então não entre. Quero dizer, eu já sei que você descobriu o que é ser diretora, e que você é uma ótima produtora. Você acha que vai fazer mais disso?

SH: Sabe o que me deu água na boca? Histórias de mistério e assassinato. [Risos.]

AJ: Meu Deus, você seria tão boa nisso. Tipo, um trabalho divertido.

SH: Um thriller psicológico. Eu adoraria fazer isso. E você, Angie? Não sou eu quem deveria estar fazendo as perguntas. Eu sei no que você é boa e no que eu adoraria te ver trabalhando. Você é muito engraçada.

AJ: Ah. [Risos].

SH: Nós rimos muito. Você tem um senso de humor ácido e sarcástico maravilhoso. Consegue ser muito inteligente e hilária. Mas sempre de um jeito elegante. É isso que eu gostaria de ver você fazer. Também quero ter certeza de que estou fortalecendo a minha comunidade. Mas estou bem animada com a chegada dos meus 60 anos.

AJ: Estou animada por você.

SH: Eu me sinto jovem. Me desculpe — não, não, não, não vou pedir desculpas. É bom para mim estar nesta idade. Estou na minha melhor fase hoje. A contradição engraçada é que, como mulheres, conforme envelhecemos, temos mais coisas a dizer e podemos dizê-las com mais clareza. No entanto, temos menos oportunidades de dizê-las. Não faz o menor sentido.

AJ: Nós, como artistas, precisamos evoluir, e a nossa contribuição muda quando somos mais velhos do que quando éramos mais jovens. Quando pensamos nos nossos filhos, muito disso também envolve explorar a feminilidade e refletir sobre os desafios que enfrentamos.

SH: Vamos voltar para os mais jovens. [Risos.]

AJ: Eles têm algo único a dizer, não é? Em cada fase. Além disso, eles estão se comunicando entre si. Os jovens conseguem se relacionar uns com os outros de maneiras diferentes, e estão enfrentando um mundo novo. Nós duas fomos criadas em uma época em que havia mais privacidade e você podia se perder no mundo. Havia mais comunidade porque existia menos tecnologia. Perigos diferentes, mas muito mais liberdade. Menos influência externa, de certa forma. Era mais fácil moldar a si mesma de maneira mais independente.

SH: Nós conseguimos criar uma boa comunicação com nossos filhos porque tentamos manter contato com essas novas gerações. O que interessa a eles? Do que eles gostam? Nós aprendemos com eles. Eu aprendi com os seus filhos. Apesar de todas as coisas que nos fazem questionar se fizemos certo ou não, acho que continuamos descoladas. Mães descoladas. Mas não descoladas demais.

AJ: Você é a mãe, mas também é amiga deles. Eu valorizo ​​isso também. É preciso encontrar esse equilíbrio, porque você é a mãe, mas não sabe tudo, e também está ali para dar um passo atrás. Eles têm muito a compartilhar e nos ensinar. Isso constrói amizade. Você percebe o quão inteligentes seus próprios filhos são. Você quer que eles tenham outras pessoas incríveis em suas vidas para ensiná-los o que você não sabe.

SH: Eles se sentem muito seguros para te contar qualquer coisa, te ligar para pedir conselhos ou para falar de coisas pequenas. Mas eles também têm direito à privacidade deles. Eles são tão diferentes, e você se adapta a cada um deles lindamente. Você os deixa ser eles mesmos. Vejo muitas mães tentando moldar seus filhos, e isso coloca muita pressão sobre eles. Não acho que sejamos esse tipo de pessoa.

AJ: Não. Fico mais confortável com alguém que é apenas quem realmente é. Fico desconfortável quando alguém finge ser outra pessoa; isso me deixa inquieta.

SH: Você é alérgica à falsidade, isso é certo. Você tolera críticas, mas não tolera falsidade — porque aí você vira as costas e vai embora.' Este é o meu 'Angie-ismo' favorito: você me diz para não fazer algo, ou me dá um bom conselho para fazer de um jeito diferente. Eu teimo sobre o assunto. E então você diz, com muito carinho: 'Eu vou te apoiar porque sei que você vai fazer de qualquer jeito. Eu consigo entender por que você está fazendo isso. É algo como: Apenas tente se proteger.' E eu respondo: 'Não, não, eu sei o que estou fazendo.' Depois eu penso: 'Meu Deus, eu deveria ter ouvido a Angie.' [Risos.] Eu te ligo e te conto. Você não diz: 'Eu te avisei'. Você diz: 'É, a gente sabia que isso ia acontecer, mas pelo menos…' Você me faz lembrar da minha intenção original que me meteu em encrenca, que era uma intenção honrosa. Sabe do que eu tô falando?

AJ: Você sempre tem boas intenções. E você valoriza uma verdade dura, assim como eu. Para mim, é uma forma de carinho se alguém me puxar de lado e me disser onde estou errando ou me desafiar.

SH: Estou animada para aprender como estar presente para meus filhos nesta nova fase da vida deles, o que significa que terei que reaprender tudo.

AJ: Sim. É complicado.

SH: Estou animada com as pessoas e os animais na minha vida.

AJ: Você e seus animais. Eu já estive no quarto com a sua coruja.

SH: É verdade! Ela se foi, a minha coruja. Estou animada para continuar a evoluir no meu maravilhoso relacionamento com meu marido e continuar a nos descobrir. Estou amando a minha vida em Paris agora. Estou em uma casa nova, e minha filha mais velha passa por lá todos os dias. Estou gostando de curtir a companhia dela como uma adulta morando na mesma cidade. Ela tem o próprio apartamento. Eu vinha muito a Paris, mas mais nos fins de semana. Agora estou em Paris em tempo integral. É simplesmente uma vida totalmente nova para mim. Os filhos saíram de casa; o ninho está vazio. Por um instante, quase te convenci a se mudar para Paris. Você considerou a ideia. Eu pensei: "Qual é, amiga, você não pode me deixar sozinha lá." Você quer um lugar mais agitado.

AJ: Nós nos divertimos bastante. Eu precisava me divertir. Você me conheceu em um momento difícil da minha vida e me fez sorrir.

Créditos de Produção

Fotografia: Julia Noni

Styling: Jessica Willis

Direção de Arte: Martin Schnabl

Cabelo: Laurie Zanoletti

Maquiagem: Kelly McClain

Manicure: Magali Sanzey

Assistentes de Styling: Guilherme Cevidanes, Olivia Laghi e Elsa Deeson

Estilista de Objetos: Vuk Levkovic

Alfaiates: Guillem Rodriguez e Nicola Boyer

Escultura: Nicolas Lefebvre

Produção: Ania Rybus

Assistentes de Produção: Andrew Gutrov e Paul Roithfeld

The Cut

Editora-Chefe: Lindsay Peoples

Diretora de Fotografia: Noelle Lacombe

Diretora de Moda: Jessica Willis

Editora de Fotografia: Sofía Mareque

Editora de Mercado de Moda: Emma Oleck

Fonte: The Cut

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